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Poeta cria intervenção urbana para falar sobre o suicídio 29683963_1720652508002471_6002812121576898560_n

Paulistana de 39 anos, a poeta Marcia Matos é sobrevivente da quarta geração de uma família de mulheres suicidas (1920 – 1938 – 1983). Publicou seu livro de poemas O vento que varre a casa em formato bilíngue (português/espanhol) pela Editora Patuá em 28 de março. A orelha do livro é escrita por Lélia Almeida e o texto de apresentação por Marta Porto. Os poemas dão voz a personagens criados a partir das reminiscências das histórias de infância narradas pela mãe. A autora, com cinco anos de idade, em 1983, vê a família mergulhar em um longo silêncio, que duraria como um estilhaço de longo alcance, quando ocorre o último incidente familiar.

“[…] o silêncio sobre as mulheres suicidas, sejam elas escritoras, personagens literárias ou mulheres anônimas, é um sintoma claro do grande mal-estar e sentimentos de não pertença das mulheres num mundo onde elas não têm cabida em suas demandas mais profundas. Uma leitura imprescindível para quem questiona e reflete sobre a dura vida das mulheres de todos os tempos.” Lélia Almeida

“[…] Em O vento que varre a casa, Marcia Matos mergulha no limite da fragilidade humana a partir de estórias vividas por sua família. Todas atravessadas por uma dor comum: a impossibilidade de continuar acreditando na vida […] Lembranças que criam aquilo que os teóricos da literatura chamam de ‘o efeito do real’, o uso de uma série de dispositivos ficcionais a partir de dados e documentos que aludem à realidade para criar uma figura literária pujante.” Marta Porto

Um diagnóstico errado a respeito de uma doença degenerativa em 2012 foi o gatilho para a formatação de seus escritos gestados há mais de uma década. Composto de cinco partes em que poemas são intercalados por narrativas breves que apresentam estas mulheres ao longo das gerações, o livro encerra-se com a transformação da família e o olhar em redor. O vento que varre a casa é dedicado aos que sobreviveram ao suicídio de alguém e a todos os que se mantiveram na dúvida.

Este livro de estreia é a base de um trabalho artístico inédito que inclui composição, performance e instalações visuais. Marcia Matos, formada em Psicologia pela Universidade São Francisco, dedica-se à Psicanálise Lacaniana.

“Há livros que constroem enquanto pensamos que construímos. Por longos anos tirava de manhã a pá para me dirigir a uma estranha construção para a qual eu estive vendada. Certa noite me foi tirada a venda. Algumas vezes ao procurar o castelo que eu imaginava erguer, encontrava apenas um fosso que costumava cavar. E só depois de largo tempo foi que senti que a água estava por emergir. Puxei o balde e pude vislumbrar com inteireza as flores desse jardim tão familiar. Eu enterrava os meus mortos.”  Marcia Matos